Yūken Teruya. Voices (2012)

A tese, defendida em 2023 no Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ), investiga as implicações estético-ontológicas da arte contemporânea japonesa produzida após o triplo desastre de 11 de março de 2011, constituído por um terremoto e tsunami que devastaram a região de Tōhoku, bem como o subsequente colapso da usina nuclear de Fukushima Daiichi que transformou parte da prefeitura de Fukushima em áreas de exclusão nuclear. Considerado um dos maiores desastres socioambientais da história do Japão, o desastre provocou não apenas perdas humanas e materiais, mas também profundas reconfigurações políticas, sociais e cosmológicas, tornando-se um marco para a produção artística e para o pensamento crítico no país. A pesquisa parte da reflexão de que a arte, mais do que simples representação ou registro do trauma, seria uma forma de pensamento que possibilita reorganizar mundos e produzir novos modos de existência.

Baseada em uma abordagem etnográfica que combinou pesquisa de campo no Japão, visitas a museus e exposições, entrevistas com curadores e artistas, e análise de obras e instalações, a tese examina como a arte pós-2011 articula processos do que o autor denomina como “presentificação da catástrofe”, ou seja, estratégias estéticas para a tradução da incomensurabilidade da catástrofe e da invisibilidade da radiação sem que sejam acionadas, necessariamente, imagens da destruição ou violência. O argumento central da pesquisa é que essa produção artística atua como uma forma de “reativar a catástrofe”, no sentido proposto por Isabelle Stengers, mantendo aberto o acontecimento para que ele continue a mobilizar reflexão e ação política. Em vez de buscar uma superação, essas obras funcionam como dispositivos de memória ativa, como paisagens de ruína que convocam à responsabilidade compartilhada e à invenção de futuros possíveis.

Kenji Yanobe. Sun Child (2011)
Kenji Yanobe. Sun Child (2011). A obra de Yanobe, exposta em Ōsaka, representa a conexão com debates sobre radiação nas décadas de 70 e 80 e esboça a esperança de um futuro pós-nuclear, refletindo as preocupações após o desastre da usina de Fukushima. Fotografia do autor, 2019.

A tese organiza-se em quatro capítulos. O primeiro propõe a construção de um panorama das artes e estéticas japonesas e de suas transformações, desde o período Meiji  (1868-1912) às reconfigurações da arte no pós-guerra e no Japão pós-industrial, a partir da década de 1990. Discutem-se conceitos como bijutsu (美術 – arte), bigaku (美学 – estética) e suas respectivas expansões rizomáticas para além das possibilidades de tradução, em direção a uma pluralidade de sensibilidades contemporâneas, articulando essas discussões ao campo da antropologia da arte e às teorias relacionais que evidenciam mundificações possíveis a partir do desastre.

No segundo capítulo, são abordados os animismos japoneses e suas atualizações contemporâneas. Partindo das cosmologias Shintō (神道 – Xintoísmo) e de sua relação com os kami (神 – deidade), são analisadas práticas religiosas, matsuri (祭り – festivais) e narrativas míticas que reafirmam a dissolução do binômio natureza/cultura no Japão. O capítulo explora ainda o conceito de tecnoanimismo, discutindo como robôs, objetos e paisagens urbanas são dotados de agência em uma ecologia ampliada. Essas concepções oferecem uma chave para compreender a ressonância das obras de arte pós-2011, que frequentemente evocam presenças invisíveis, fantasmas, entidades e forças da natureza, atualizando a sensibilidade animista no contexto das ruínas nucleares.

O terceiro capítulo aprofunda a discussão sobre o triplo desastre, articulando a antropologia do desastre, a ecologia escura de Timothy Morton e os debates sobre o Antropoceno. O desastre é pensado neste capítulo como um “evento liminar”, capaz de desestabilizar categorias estabelecidas e de abrir espaço para novas proposições cosmopolíticas. São analisadas obras de fotógrafos, cineastas e artistas visuais que produziram nas zonas de exclusão nuclear, confrontando o espectador com a invisibilidade da radiação, o abandono das cidades e a persistência de memórias corporais e comunitárias.

No quarto e último capítulo, são analisadas as propostas que o autor chama de “cosmopolíticas da reconexão”, que descrevem a maneira como essas práticas artísticas funcionaram como mediações entre mundos: o mundo dos vivos e dos mortos, o mundo das cidades devastadas e o das metrópoles distantes da radiação, o mundo do passado pré-desastre e o futuro pós-nuclear. Essas cosmopolíticas se baseiam não apenas na noção de presentificação, mas também em ideias como a estética da justaposição, o novo imaginário nuclear criado em Fukushima, no poder de criação da natureza e nas múltiplas relações entre memória social e contraperformatividade da arte.

Neste último capítulo são discutidas exposições e projetos colaborativos, como Don’t Follow the Wind (“Não siga o vento”, 2015), do coletivo Chim↑Pom, que transformaram a inacessibilidade das zonas radioativas em gestos estéticos e políticos, convertendo a ausência em experiência sensível. Essa produção, longe de se limitar a um testemunho documental, reflete e questiona a catástrofe, reformulando seus regimes de visibilidade, questionando as fronteiras do que pode ser visto, dito e lembrado.

Do ponto de vista teórico, a tese dialoga com autores da antropologia, das artes e da filosofia para sustentar a ideia de que vivemos um tempo em que as separações modernas entre natureza e cultura, humano e não-humano, representação e realidade se tornam insustentáveis. A arte pós-Fukushima, ao fazer ver o invisível e ao considerar a agência do desastre, apresenta-se como um campo de experimentação ontológica alinhada à ontologia orientada ao objeto. Ela propõe não apenas novas possibilidades de lidar e compreender a incomensurabilidade da catástrofe, mas novos modos de viver e morrer bem juntos no Antropoceno, produzindo uma ecosofia, no sentido guattariano, que integra dimensões ambientais, sociais e subjetivas.

Em suas conclusões, a pesquisa aponta que essas proposições artísticas funcionam como uma espécie de kintsugi 金継ぎ, a técnica japonesa de reparar cerâmicas quebradas com ouro: em vez de apagar as fraturas, elas as ressaltam, transformando a ferida em lugar de criação. Reativar a catástrofe, nesse sentido, seria uma maneira de (re)animar o mundo, de devolver-lhe sua potência relacional e de resistir às lógicas de esquecimento e normalização que frequentemente se seguem aos desastres. Ao mesmo tempo, essa reflexão extrapola o caso japonês e oferece ferramentas para pensar as múltiplas crises globais que marcam o Antropoceno, abrindo caminhos para uma ética e uma estética da convivência nas ruínas.

Yūken Teruya. Voices (2012)
Yūken Teruya. Voices (2012). Cosmopolíticas da reconexão: sobre o potencial da arte em reformular as imagens de destruição a partir da natureza. Acervo do Museu de Arte Contemporânea do Século XXI de Kanazawa. Fotografia do autor, 2019.