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Kenji Mizoguchi (1898-1956) foi considerado um dos mais importantes e profícuos diretores do cinema japonês. Mizoguchi produziu filmes como Crisântemos Tardios (1939), Senhora Musashino (1951), A Vida de Oharu (1952), O Intendente Sansho (1954), Contos da Lua Vaga (1953), e foi tema do livro Mestre Mizoguchi – Uma Lição de Cinema (1990), organizado pela brasileira e doutora em artes Lucia Nagib.

Os filmes de Mizoguchi são considerados interessantes por serem donos de temáticas feministas e progressistas, uma vez que constroem perspectivas narrativas centradas na figura das mulheres. Neste sentido, o diretor explorou a vida de prostitutas, donas de casa, cortesãs e até mesmo fantasmas vingativos na tentativa de demonstrar como os marcos de gênero trazem impactos extremamente fortes para a vida e o cotidiano das mulheres no Japão.

Sua produção, no entanto, nem sempre serviu a esses fins. Diante da expansão do Império japonês, por exemplo, Mizoguchi produziu filmes financiados pelo Estado na tentativa de elevar o militarismo, honra e ideais de lealdade necessários para o exército nipônico. O filme 47 Ronin (1941), por exemplo, pode ser considerado um resultado desse objetivo, uma vez que sua história destaca a dignidade de guerreiros samurais que se tornaram rōnin (浪人 – pessoa errante, andarilho) após a morte de seu líder. O filme foi regravado em 2013, contou com atores como Keanu Reeves, Hiroyuki Sanada e Tadanobu Asano no elenco, porém, foi um fracasso de bilheteria. A adaptação de Mizoguchi, no entanto, também não foi bem aclamada, uma vez que foi considerada “muito séria e formal”. Ainda assim, a obra foi utilizada como marca para o código de honra samurai, tendo o Bushidō (武士道 – caminho do samurai) como elemento imprescindível para o espírito patriótico na década de 1940.

Com o final da Segunda Guerra Mundial e a derrubada do Estado político imperial no Japão, Mizoguchi foi eleito presidente do sindicato organizado pela empresa Shochiku, sob responsabilidade das forças de ocupação estadunidenses na época. Neste período, Mizoguchi lançou títulos da liberação feminina, como Vitória das Mulheres (1946) e Chama do Meu Amor (1949), para comemorar a nova posição da mulher na sociedade japonesa com a democracia vigente. Porém, mesmo diante da nova realidade possibilitada pela democratização após 1945, o diretor passou a trabalhar em uma estética neorrealista e até mesmo pessimista, devido ao fato de suas obras demonstrarem um Japão moderno, cheio de ambiguidades e desilusões, especialmente para o elemento feminino.

Contos da Lua Vaga
Mizoguchi nos bastidores de Contos da Lua vaga

Na dissertação de mestrado publicada em 2022, Nacionalismo Japonês no Pós Segunda Guerra Mundial: Tradição, Sistema Familiar e Casamento Fantasma em Contos da Lua Vaga (1953), desenvolvida no Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal de São Paulo, tentamos compreender como o filme de Kenji Mizoguchi trabalhou com questões primordiais para a sociedade japonesa durante a década de 1950, como é o caso do sistema familiar. Conhecido como Ugetsu no exterior ou Tales of Ugetsu, o filme Contos da Lua Vaga retrata a dura realidade de famílias camponesas durante o século XVI, quando das guerras de unificação no território nipônico. Durante o filme, chefes de duas famílias campestres tentam enriquecer, enquanto suas esposas apenas querem viver honradamente ao lado de seus maridos.

Durante a trama, Tōbei, interpretado por Eitarō Ozawa, sonha em tornar-se um samurai. Na obra, porém, os samurais são representados como homens tolos e sem valor, altamente violentos ao saquear vileiros no campo. A mulher de Tōbei, Ohama, interpretada por Mitsuko Mito, acaba caindo em vias de prostituição quando tenta salvaguardar seu marido de seu sonho considerado imaturo.

Por outro lado, a família principal do filme é afetada quando o patriarca Genjūrō, interpretado Masayuki Mori, envolve-se com uma estranha e rica mulher, tendo com ela um caso extraconjugal. O sonho de enriquecimento de Genjūrō, vendedor de baixelas de porcelana, leva-o a afastar-se de sua esposa Miyagi, estrelada por Kinuyo Tanaka, e aproximar-se da abastada e misteriosa Lady Wakasa, interpretada por Machiko Kyō. Ao envolver-se com Wakasa, Genjūrō abandona Miyagi, que é morta após defender seu filho em um ataque de pobres famintos.

Durante o filme, enquanto Tōbei percebe o quanto seu sonho tolo de ser samurai levou sua mulher à degradação, Genjūrō vê-se mais e mais envolvido com a misteriosa mulher que estabelece consigo uma estranha união: o Casamento Fantasma. A cerimônia, que ocorre entre Genjūrō e Wakasa, faz com que o vendedor de baixelas esteja física e emocionalmente preso a uma fantasma que, com o passar do tempo, poderia levá-lo à morte.

Embora pareça apenas uma ficção fílmica, o ritual Casamento Fantasma foi altamente realizado em momentos de crise como epidemias, pestes e guerras. A prática tem a função de tornar falecidos solteiros, que morreram abruptamente sem construir família, em cônjuges de outros consortes. Ainda que pareça ímpar, esta prática foi extremamente importante em países asiáticos e africanos onde o sistema de parentesco tem grande influência. Em comunidades na China, Coreia, Japão, África do Sul e Sudão, este ritual tornou-se extremamente importante, pois faz com que a alma de falecidos estejam atreladas ao panteão e altar nuclear doméstico, sendo relembradas, anualmente, como veneráveis ancestrais.

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As famílias de Contos da Lua Vaga refletindo sobre seus futuros

De toda forma, mesmo que se trate de um instigante drama familiar, o filme tem como palco uma guerra onde viventes e fantasmas se relacionam. A obra é lida pelo historiador Marcelo Spindola como uma metáfora sobre a Segunda Guerra Mundial, e, de acordo com sua interpretação, o diretor Kenji Mizoguchi mascarou o conflito utilizando, em seu lugar, as guerras de unificação do século XVI. Essa atitude de Mizoguchi pode ter sido ocasionada pelo fato de artistas e intelectuais japoneses ficarem expressamente proibidos de tocar em determinados temas que haviam sido considerados relevantes para o ultranacionalismo das décadas de 1930 e 1940. O próprio embate mundial era um desses assuntos e, graças à censura das forças de ocupação estadunidenses, muitos japoneses só puderam falar seguramente da guerra após a segunda metade da década de 1950.

No filme, ao mencionar o brutal conflito causado pelo unificador japonês Oda Nobunaga, que contou com armas de fogo e altos níveis de violência estatal e popular para conseguir soberania, Mizoguchi poderia referir-se, implicitamente, à Segunda Guerra Mundial. Assim, o diretor buscou destacar pontos como a selvageria, conquista, lucro e enriquecimento pessoal, que levaram à perda do maior bem para a nação japonesa durante o embate: a família.

Na dissertação de mestrado, o autor buscou trabalhar seu argumento em três capítulos: no primeiro, averiguando como a família e a identidade familiar foram entendidas como “bens nacionais”, diluídos após a ocupação estadunidense; no segundo, em que o cinema e os filmes são tidos como fontes seguras para a análise de aspectos psicossociais de um povo, como é o caso do cinema japonês e a produção mizoguchiana; e o terceiro, onde Contos da Lua Vaga é lido à luz do contexto histórico do pós-guerra. No último capítulo, estuda-se não apenas o sistema familiar no filme, mas também os motivos que levaram Kenji Mizoguchi a fazer com que seus personagens performassem o ritual Casamento Fantasma.

De acordo com essa perspectiva, ao proteger o sistema familiar japonês e elevar o Casamento Fantasma, Mizoguchi poderia defender um novo tipo de nacionalismo identitário, onde a família atuaria como centro das preocupações sociais, culturais e éticas de um Japão em vias de transformação.

Para obter mais detalhes, leia a dissertação: Nacionalismo japonês no pós Segunda Guerra Mundial: tradição, Sistema Familiar e Casamento Fantasma em Contos da Lua Vaga (1953), disponível em: https://repositorio.unifesp.br/items/ae4150e0-44ad-4109-bbe9-46a74af4713c