
Definitivamente, kabuki é uma arte da cena. Não obstante, para além disso, o que a história nos mostra é que sua definição não é nada pétrea e depende, sobretudo, das condições da época a que iremos aludir. Isso porque, ao longo do tempo, a linguagem artística predominante alternou-se ora ou outra, os agentes e praticantes alternaram-se ora ou outra, a percepção da sociedade em relação aos artistas alternou-se ora ou outra, o papel intervencionista do governo alternou-se ora ou outra, a estética, as mídias, os temas, os manuais de encenação, a concepção de palco, tudo isso se mostra bastante transitório no trajeto do que chamamos de kabuki.
Por isso, neste texto dividido em duas partes, pretendo margear o trajeto do kabuki a fim de sintetizar algumas características predominantes em cada momento histórico e facilitar o desaguar da nossa compreensão desta arte nos dias de hoje. Aqui, mais do que nunca, busco evidenciar as estratégias de perpetuação postas em prática pelo kabuki ao longo dos séculos diante de seus dilemas. Uma arte canibalizadora ávida por existir apesar dos pesares.
A começar pela palavra, o verbo arcaico katabuku (傾く), que significa “inclinar-se”, “oscilar”, “pender-se”, inspirou a criação de outro verbo, kabuku, que significa “transgredir” ou “desviar-se da norma”. No Japão da era Edo (1603-1869), essa palavra era usada para designar pessoas conhecidas por seu comportamento excêntrico, pelo uso de vestimentas pitorescas e por uma aparência considerada fora dos padrões da época. Esses indivíduos eram chamados de kabukimono (傾奇者). As mulheres que performavam ao ar livre eram chamadas de kabukihime (傾奇姫), dançarinas expressivas e ornamentadas de forma extravagante, sua maneira de dançar destoava das convenções gestuais.
Inicialmente, o termo kabuki ainda não era amplamente utilizado para designar um gênero teatral específico, funcionando mais como um apelido para um tipo de encenação expressiva e ornamentada. Outra palavra advinda das más línguas era kabuki (歌舞妓), com o sufixo que remetia à prostituição. Para o teatro popular, em geral, utilizava-se a palavra shibai (芝居), que abrangia apresentações de palco. Vale lembrar que os artistas eram socialmente marginalizados e classificados como “não-pessoas” (hinin, 非人) até o início da era Meiji (1868-1912).
Quando foi inaugurado o teatro Kabukiza, em 1889, cogitou-se chamá-lo de Kabuza, mas a palavra kabu lembrava “rabanete” (蕪), que, ironicamente, também era uma gíria depreciativa para designar atores ruins. Optou-se, então, por Kabukiza, escolha decisiva para consolidar o termo oficial kabuki (歌舞伎) para referir-se à arte da cena que conhecemos hoje. A sonoridade da palavra foi mantida, mas alterou-se sua construção ideogramática. Kabuki, agora, adota três caracteres que significam, respectivamente, “canção”, “dança” e “habilidade”. A palavra constitui, portanto, um exemplo gramatical de ateji (当て字), na qual os caracteres não representam a etimologia original, mas estabelecem uma associação fonética e simbólica adequada à imagem cultural que se desejava afirmar (1).
Dentre as várias manifestações performáticas que alimentaram o surgimento do kabuki, podemos citar os rituais kagura (神楽), as danças folclóricas e religiosas como o nenbutsu odori (念仏踊り), o fūryū odori (風流踊) e o bon odori (盆踊り), as apresentações de sarugaku (猿楽) e dengaku (田楽) e os teatros nō (能楽) e kyōgen (狂言) (2). Todas carregam distintas origens e prestam contas a tradições que nem sempre têm linhagens de pensamento próximas ou similares, o que faz com que o kabuki seja resultado de uma verdadeira canibalização poética no desenvolvimento de um rizoma inspiracional. Muito mais do que um sistema de raízes, ele não partilha íntima relação com a origem das manifestações das quais se alimenta, preferindo apropriar-se delas em colheita, temperá-las a seu gosto e devorá-las para gerar um novo tratado artístico.
Referências
(1) LEITER, S. Kabuki at the crossroads: years of crisis, 1952-1965. New York: Brill, 2013.
(2) YAMANAKA, R. (org). A companion to Nō and Kyōgen theatre. Leiden: Brill , 2024.
